23/04/2007

O conhecimento em David Hume.

David Hume nasce em 1711 em Edimburgo, na Escócia e morre na mesma cidade no ano de 1776. De entre as obras do autor é de salientar o Tratado sobre a Natureza Humana, publicado em 1739-40, e Investigação sobre o Entendimento Humano publicado em 1748.
O estudo do pensamento de Hume pode iniciar-se com as noções de impressão e ideia. Segundo a sua teoria todo o nosso conhecimento é empírico, sensível. Os seus elementos fundamentais são as impressões e as ideias; as duas espécies de percepções. As impressões referem-se às sensações externas. As ideias são as percepções que constituem o nosso pensamento. Hume distingue-as pelo grau de intensidade com que atingem o nosso espírito. Assim, as impressões são todas as sensações externas que sentimos, quer as desejemos ou não. Por outro lado, as ideias sendo as percepções que constituem o nosso pensamento, são as imagens (enfraquecidas) das impressões. As ideias nunca podem alcançar a força da impressão, pois são cópias da impressão.
Por isso, David Hume defende que todas as nossas ideias têm uma origem empírica: se todas as ideias que surgem no nosso pensamento são cópias do que percepcionamos, então nada existe previamente no pensamento. Rejeita, portanto, a existência de ideias inatas, teoria defendida por Descartes.
Surge então um problema: o que podemos dizer das ideias que não correspondem a qualquer impressão que tenhamos tido? Hume insere aqui a diferença entre ideias simples e ideias complexas: ainda que todas as nossas ideias simples sejam cópias directas de impressões, o nosso pensamento combina imaginativamente essas ideias de modo a formar ideias mais complexas. “É evidente que existe um princípio de conexão entre os diferentes pensamentos ou ideias da mente e que, no seu aparecimento à memória ou à imaginação, se apresentam umas às outras com um certo grau de método e regularidade.” (Hume, David; Investigação sobre o entendimento humano, Lisboa, Edições 70, Textos Filosóficos, Outubro 2004, pág. 29)
Para explicar a relação de ideias, Hume propõe três princípios: a semelhança – quando objectos se assemelham um ao outro, então o pensamento acerca de um deles conduz, naturalmente, a pensamentos acerca do outro; a contiguidade no espaço e no tempo – se dois objectos são próximos no espaço e no tempo, isto é, se ocorrem juntos um do outro, então de forma análoga, a ideia de um levará à ideia de outro; a causa e efeito – ao pensarmos numa ferida, dificilmente nos abstemos da dor que a mesma provoca.
No entanto, apesar de Hume nos demonstrar a associação de ideias através destes três princípios, encontramos ideias simples que não se relacionam com nenhuma realidade de facto. O raciocínio é considerado uma descoberta de relações, umas entre factos, outras entre relações. Nas questões de facto conhecemos verdades contingentes, isto é, provenientes da experiência, enquanto nas relações de ideias podemos conhecer verdades necessárias, isto é, temos conhecimento a priori mas este é, de certo modo, vazio: nada ficamos a saber sobre o mundo. Nestas relações inserem-se as “ciências da Geometria, Álgebra e Aritmética e, em suma, toda a afirmação que é intuitiva e demonstrativamente certa”. (Hume, David; Investigação sobre o entendimento humano, Lisboa, Edições 70, Textos Filosóficos, Outubro 2004, pág. 31). As proposições destas ciências podem-se descobrir por uma pura operação do pensamento e a negação delas é impossível porque implica contradição (ao pensarmos que três vezes cinco é igual a trinta, sabemos que metade de trinta é quinze. Se afirmarmos o contrário estamos a contradizer-nos, a afirmar algo que logicamente é impossível. Nas relações de ideias encontramos verdades necessariamente verdadeiras).
Por outro lado, todos os raciocínios que se referem a acontecimentos ou factos são a posteriori, isto é, baseia-se naquilo que estamos a sentir ou observar. Além disso, o que exprimem dizem respeito àquilo que existe efectivamente no mundo. Ao contrário das relações de ideias, aqui podemos conceber o seu contrário: ao afirmarmos que o Sol não vai nascer amanhã, afirma-se algo que é logicamente possível, apesar de parecer muito improvável que tal aconteça. Além disso, tudo o que estas relações de facto exprimem funda-se na relação causa e efeito – a relação da causalidade.
Como descobrimos as causas e os efeitos daquilo que observamos? Hume afirma que não podemos descobrir a priori, isto é, através do pensamento que certos aspectos ou acontecimentos causam outros objectos ou acontecimentos. A resposta à questão anterior é que o nosso conhecimento das relações causais baseia-se na experiência.
Hume afirma, ainda, que os objectos ou acontecimentos entre os quais se verifica uma relação causal são completamente distintos. Assim, se não tivermos o auxílio da experiência, nunca poderemos descobrir que efeito terá um certo objecto/acontecimento, nem que causa o produziu. David Hume explica-nos que o Homem, ao chegar ao mundo com uma grande capacidade de raciocínio, mas sem qualquer experiência, não conseguiria fazer inferências causais – seria incapaz de descobrir as causas e os efeitos do que estivesse a observar. Apenas podemos afirmar que a causalidade é uma conexão necessária entre a causa e o efeito.
Que podemos dizer, então, quando afirmamos que existe uma relação causal entre certos objectos ou acontecimentos? Hume diz-nos: a causalidade consiste apenas numa conjunção constante entre géneros de acontecimentos ou de aspectos observáveis.
As relações causais consistem em meras regularidades observáveis. Aquilo que é essencial numa relação causal é a existência de uma conexão necessária entre causa e efeito.
Mas como surge a ideia de que existe uma ligação necessária entre causa e efeito? A ideia de conexão necessária resulta de um sentimento interno adquirido pelo hábito. A impressão da qual deriva a ideia de conexão necessária é a expectativa do efeito quando a causa se apresenta. A necessidade é uma impressão interna da mente, o que leva o nosso pensamento de um objecto para outro.
Lurdes Santos

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